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3.3.16

Delírios Declarativos #12

Dou muito valor ao Cristiano Ronaldo. A força de vontade, que teve que ter, para se tornar no melhor do mundo serve de exemplo para qualquer pessoa. Gosto de ver as várias reportagens a mostrar o que ele teve que superar para chegar onde chegou. As entrevistas com os familiares e com os treinadores, a contar os diferentes episódios. Quando ele acordava mais cedo do que os outros para ir treinar, ou quando ficava até às tantas da noite a fazer exercícios. Impressiona bastante.

Fazem falta mais reportagens destas para se perceber como se consegue chegar ao topo. Por exemplo: com o Hitler. Não há uma reportagem a mostrar o que o Hitler teve que passar para se tornar no melhor ditador do mundo. Não deve ter sido nada fácil. Se não foi para o Ronaldo, para o Hitler também não. Ninguém nasce com o talento para discriminar. É preciso muito trabalho e determinação. E se o Ronaldo teve, o Hitler também teve que ter. 

Consigo imaginar o Hitler, todos os dias, a acordar mais cedo do que os outros para odiar um bocadinho mais. Desde pequeno, sempre a tentar a ser o melhor a fazer comentários xenófobos e racistas. É preciso dar-lhe valor. É preciso mesmo. Foi o maior ditador da sua geração, ainda por cima na época de ouro da tirania. Temos um Mussolini em grande forma; temos um Estaline a fazer coisas maravilhosas ao nível da tortura; temos um Franco a facturar em Espanha. No caso do Ronaldo, há várias pessoas a considerá-lo o melhor, mas tens outros a considerar o Messi. Com o Hitler não. Há unanimidade: “Sim, ele era o ditador mais completo, sem dúvida. Perseguia, torturava, invadia e matava em grande escala. Tinha tudo, de facto.”

É uma pena que já não dê para fazer esse tipo de reportagens sobre o Hitler. Estou a imaginar o Nuno Luz a entrevistar os seus familiares: “Sim, via-se desde pequenino que ele ia espalhar o terror pelo mundo. Ele chegava da escola e ia logo a correr para a janela fazer comentários injuriosos às minorias que passavam na rua. Era impressionante a determinação que ele tinha para odiar. Lembro-me de uma vez que o apanhei, acordado, às tantas da noite. Eu perguntei: ‘Hitler, o que é que estás a fazer acordado a esta hora?’ E ele: ‘Estou só a acabar este desenho da nossa família a chacinar outra família de judeus, com pás.’ Já dava para ver que ia ser um fenómeno."

10.12.14

Delírios Declarativos #11

Ando com uma dor irritante nas costas. O que também é irritante é aquele gajo que tira o gorro da cabeça das pessoas. É um comportamento que se encontra nos diferentes quadrantes da sociedade, mas geralmente afecta mais o ramo das engenharias. O licenciado em engenharia, que arranjou emprego na empresa do tio, está mais sujeito a realizar esta patifaria. É o tipo de gajo, meticuloso, que parece que vai dar um abraço à pessoa, mas no final, por detrás das costas, tira-lhe o gorro, como se tratasse de um mágico a desvendar um truque que toda a gente já percebeu. "E agora, senhores e senhoras, o que está por baixo deste carapuço é um coel...ah, afinal é cabelo humano." 

Normalmente, quando testemunho esta ocorrência, tanto no meu grupo de amigos, como fora dele, parte de mim quer acreditar que está apenas na presença de uma pessoa muito sensível nas questões de igualdade. Uma pessoa que, mais do que estar insatisfeita com o look apresentado pelo colega, está preocupada com a sua auto-estima e procura chamá-lo à atenção, tirando-lhe o gorro da cabeça: "Repara, eu sei que hoje não lavaste o cabelo, e procuras esconder isso, mas tens que ter mais confiança em ti. Não tenhas vergonha de expor a oleosidade do teu cabelo." No entanto, esta minha crença, em estar na presença de uma nova Jessica Athayde da igualdade social, cai por terra, quando o traidor que retira o barrete lança uma gargalhada de gozo, mostrando assim todos os ensinamentos que teve nos intervalos das aulas de “Resistência dos Materiais 1”.

Não consigo perceber o que leva alguém a tirar uma peça de vestuário a outra pessoa, de uma maneira tão brusca. Onde é que está o gozo nisso? É que tudo isto pode fazer sentido, mas se estiver na presença do início de um filme pornográfico gay, muito pouco conveniente. Será que se não estivesse presente, o executante, depois de lhe tirar o carapuço, começava-lhe a tirar a camisola e a beijá-lo? Faz sentido. Este imbróglio todo pode fazer parte de uma frustração sexual. Ou então, além deste cenário, posso estar na presença do final de um episódio de Scooby-Doo, quando desvendam o mistério e desmascaram o vilão. Será que sempre que alguém tira o gorro a uma pessoa, o Fred, a Daphne, a Velma, o Shaggy e o Scooby-Doo estão prestes a saltar da carrinha para o prender? Também faz sentido. Se calhar, afinal o vilão é a pessoa de gorro, e o licenciado em engenharia, que arranjou emprego na empresa do tio, colabora com a Mistery, Inc.

23.10.14

O Ódio

O futebol desperta muitas emoções. Positivas ou negativas, cada pessoa tem a sua maneira de lidar com o jogo. Há pessoas que odeiam certo clube, certo jogador, certo treinador. Confesso que o futebol também me desperta um certo ódio, mas não tem nada a ver com um clube rival, com a falta de habilidade de um jogador ou com um treinador que não sabe pôr uma equipa a defender, à zona, nas bolas paradas. Aliás, o meu ódio é mais específico, porque não tem bem a ver com os intervenientes do jogo, mas mais com um interveniente fora do jogo. Não, não estou a falar dos adeptos, nem dos comentadores. Estou a falar da minha mãe. 

Eu odeio ver um jogo de futebol com a minha mãe. A sua presença faz-me odiar ver futebol. Sempre que ela está no mesmo espaço físico que eu, consigo transformar-me num membro da claque dos Super Dragões, Juve Leo, No Name Boys, White Angels e Mancha Negra – tudo na mesma pessoa – tal é o odio que sinto dentro de mim. É mais ou menos como aquela cena dos Power Rangers, que levam coça dos maus e, de um momento para o outro, cada Power Ranger junta-se e transforma-se num só e o episódio acaba bem. Atenção: esta raiva não apareceu de um momento para o outro. Isto é o culminar de anos e anos a levar com questões, comentários e comportamentos muito pouco aceitáveis. 

As perguntas da minha mãe andam sempre à volta do mesmo: só mudam as personagens e normalmente não são mais que três. Uma pergunta, muito frequente, que me coloca: “O Real Madrid são os de branco, não são?” É uma pergunta que até pode ser pertinente se for colocada no início do jogo e se a equipa for desconhecida. O problema é que é quase sempre depois do minuto 60 e a equipa é um colosso mundial. Eu acho que a minha mãe deve pensar que está a ver um filme de suspense. “O que está por detrás de tudo isto é o que apareceu de casaco vermelho, não é?” 

Outra pergunta que faz é: “O que é que acontece se o resultado ficar assim?” Nada, mãe. Não acontece nada. O árbitro apita para o final e ninguém é decapitado. O que é que poderia acontecer? O árbitro apitava e dizia para os jogadores: “Ok, 90 minutos de futebol, vamos agora para a primeira parte do jogo da parede.” 

São questões, como estas, que ando a levar ano após ano, constantemente. Há mais uma: “O Ronaldo não está no Chelsea?” Nossa senhora, tanta profanação numa só pergunta! Mais uma vez, podia ser uma pergunta pertinente se não estivéssemos a falar do melhor jogador do mundo. Se fosse algo do género: “O Miguelito – defesa que passou pelo Benfica – não está no Vitória de Setúbal?” Aí está uma boa pergunta, mãe. Não te sei responder. Vou ver no zerozero...Neste momento, está a jogar no Chaves. 

É que isto são coisas que mexem comigo. Não consigo ver futebol descansado. E os comentários? Meu deus, os comentários! Os comentários são sempre sobre o tipo de penteado dos jogadores. Sempre. “Olha-me para o cabelo deste.” “Que lindo penteado.” “Que penteado tão ridículo.” É sempre isto. Não há um comentário que seja: “Epá, excelente transição defesa-ataque a conseguir roubar, rapidamente, a bola e a disponibilizar, imediatamente, nos extremos.” É sempre sobre folículos capilares. 

Mais: o seu comportamento durante um jogo. Eu consigo ver uma partida de futebol, sentado no sofá, durante os 90 minutos. A minha mãe não. Sem mais nem menos, num pontapé de canto, levanta-se do sofá e vai-se embora. Mas tu és o quê? Um gato? O engraçado é que depois só volta passado uns 20 minutos e não dá qualquer justificação. Senta-se como se não fosse nada. 

É que, lá está, estamos a falar de uma mulher que não tem qualquer interesse pela modalidade, mas tenta demonstrar interesse. E isso faz-me odiar ver futebol com ela. O que eu mais sonho é ver a minha mãe num desses programas desportivos. Se os ânimos, nesses programas, já ficam exaltados, nem quero imaginar com a minha mãe lá presente.

2.10.14

Delírios Declarativos #10

Tinha acabado de jantar. A comida foi peixe. Estava bom e estive quase para repetir. Fui à casa de banho lavar as mãos e depois voltei para a cozinha. O curto espaço de tempo em que estive ausente deu tempo, para a minha mãe, acender o incenso. Apercebi-me, antes de chegar à cozinha, que tinha acendido, porque o fumo que lavrava pela casa toda assemelhava-se a um incêndio florestal, na Serra do Caramulo - até fiquei com a impressão de ouvir as sirenes dos bombeiros ao fundo da rua. Perguntei à minha progenitora a razão de atear o incenso, que mais parece o resultado biológico de uma vela ter feito amor com um foguete. Justificou a sua acção com um “é para a casa ficar a cheirar bem”. Repliquei que “se ficar a cheirar bem é ficar a cheirar a Ruffles de churrasco, com um extracto de lavada, então acho que conseguiste”. 

Nunca confiei muito num ambientador que se revela muito semelhante a um tio que fuma 2 maços de tabaco desde os 15 anos. Por isso, procurei inventar uma história para conseguir persuadir a minha mãe a deixar de usar. Comecei com uma piada: “Mãe, já agora que acendeste o incenso, diz-me o que é que o Oráculo de Bellini tem a dizer sobre o dia de amanhã.” Ela não se riu. Entendi a postura e continuei: “Estás a ver aquela cinza que o incenso vai deixando? Já ouviste falar em Auschwitz-Birkenau? O rumor que perdura, desses tempos, é que matar, uma quantidade enorme de judeus, pode deixar uma pessoa abatida. A solução que os Nazis encontraram, para combater a depressão, foi transformar os corpos cremados em fantásticas embalagens de incenso que, mais tarde, foram enviadas para todas as lojas Natura espalhadas pela Europa.” Por momentos achei que tinha convencido a minha mãe, ao qual ela me responde: “Que ridículo. Se o incenso, à venda, fosse de judeus mortos no holocausto, como é que explicas que, este que acabei de queimar, é da cremação da tua avó do ano passado?” 

Abandonei a cozinha lavado em lágrimas. Não só porque fiquei a saber, da boca da minha mãe, que a minha avó é agora usada como incenso, mas porque não consigo pôr na cabeça como a minha avó – que foi tão importante para a minha vida -, se transformou num péssimo ambientador para a casa.

9.9.14

Delírios Declarativos #9

Há grupos de pessoas que são facilmente alvo de chacota, porque se vestem de uma certa maneira, ouvem música de um certo estilo e têm maneiras de pensar de uma certa forma. Esse grupo manifesta-se do seguinte jeito: “Para todos os haters que me criticam, parem de ter inveja. Quem não gosta, não mama. Vocês é que são todos uns invejosos. Não sou nenhuma badalhoca por comer gajos. Paz.” A partir deste grupo, dá-se o surgimento de outro grupo, que goza com o grupo anterior. Normalmente é algo deste tipo: “Esta geração não tem respeito nenhum. Cambada de burros que não sabem falar, nem escrever e que têm a mania. São uns ignorantes, só querem SWAG e espero que me atendam em condições numa das caixas do Lidl, no futuro.” Após esta declaração – normalmente é feita numa rede social –, há mais um grupo que surge. Este novo grupo vem contra o grupo que goza com o grupo anterior, mas não pertencendo ao primeiro grupo. Algo deste género: “Mas desde quando tens moral para falar assim de alguém que não conheces de lado nenhum? Cada caso é um caso. Não vale a pena generalizar uma geração inteira. Enerva-me que, gente como tu, ache-se superior ao resto, só porque tem uma maneira de pensar diferente.”

Pronto, neste momento, estamos na presença de três grupos bem distintos, cada um com a sua filosofia de vida. No entanto, há lugar para mais um. Neste caso, sou eu, que vou surgir contra os três grupos em questão. É algo diferente, porque até agora, o grupo que vem a seguir é contra o grupo anterior. No meu caso, o comentário que vou fazer, é para todos. Vou-me pronunciar da seguinte maneira: vão todos, mas mesmo todos, para o caralho!

Isto é mesmo um desabafo sincero, que guardo dentro de mim há algum tempo. Eu sei que estou a correr o risco, desta minha declaração, dar aso ao surgimento de um novo grupo que é contra a minha declaração. É um risco que tomo, que sei que pode ter repercussões desagradáveis, daí ter já uma mensagem para esse possível surgimento: vão também para o caralho! Confesso que, o meu único medo, no meio disto tudo, é não saber se o sítio, para onde os mando, tem espaço para acolher tanta gente.

2.9.14

Delírios Declarativos #8

Há demasiadas pessoas a usar expressões inglesas nas frases. Tem sentido se estivermos a falar de cidadãos originários de países onde se fala inglês. Se és originário de Camberra, tem lógica usares; se és originário de Portsmouth, com família nascida em Inglaterra, tem lógica usares. Agora, se és natural de São Mamede Infesta e a tua família é toda oriunda de Chaves, nunca viveste num país de língua inglesa, e naquele momento, não estás a falar com um individuo de um desses países, então, não tem lógica usares expressões inglesas nas frases. 

Estamos a levar, ultimamente, com uma invasão anglo-saxónica gramatical, onde vários cidadãos apresentam uma espécie de dupla nacionalidade momentânea; sim, porque a pessoa encarna o papel, de um bretão, por míseros segundos. Essa pessoa, normalmente, começa a frase na língua de Camões, mas mesmo antes de terminar, dá ali meia volta no Cabo da Boa Esperança, para atracar no porto de Southampton. Atenção: não estou a falar de estrangeirismos, nem da sigla “ok”, ou de outras. A sociedade sempre tolerou o “ok”. O problema é que já passamos do “ok”, para o “lol”, e do “lol” para o “what the fuck”. Tudo isto sem, alguma vez, na nossa história, pertencermos ao império britânico. Eu, no entanto, quero muito acreditar que, em Inglaterra, as pessoas também estão a usar expressões portuguesas a meio de uma frase. Algo como: “and, já agora, this cup of cake is delicious, honey.” “Oh meu deus, this was so amazing!” 

Eu pensava, honestamente, que o uso do inglês era um hábito, apenas, nas redes sociais, mas já fui confrontado com essa situação, cara-a-cara: “João, acabei de ver um episódio, de uma série, tão awesome. Amazing!” A minha perplexidade foi tanta, que instantaneamente, comecei a criar uma resposta dentro da minha cabeça. “Que raio de dupla personalidade é essa? Tu, a meio da frase, passaste de uma pessoa com um doutoramento em Oxford? Repara bem no teu snobismo a dizer isso. Estás mesmo orgulhoso do que acabaste de fazer. Tu sabes perfeitamente que eu sou da mesma nacionalidade que tu. Já nos conhecemos aos anos. E, já agora, porque é que usaste só duas línguas nessa frase? Experimenta usar três, quatro. Olha, experimenta tirar um curso profissional com pessoas que foram exorcizadas. Ouvi dizer que também misturam línguas.” 

Consigo perceber que o inglês está presente no dia-a-dia e, de certa forma, somos influenciados por isso. No entanto, esta troca cultural tem vindo a aumentar. Depois das expressões o que vem a seguir? Frases completas? E depois das frases começamos a adoptar os seus costumes? Vamos começar a deixar de comprar protector solar e começar a beber ao meio dia? Vamos ter um rei, começar a disparar em colegas da escola e invadir países, enquanto ouvimos AC/DC? Vamos começar a inovar a comédia, com grupos como os Monty Python, e ter a mesma piada que o Ricky Gervais e Louis CK? Não contem comigo para isso.

4.7.14

Delírios Declarativos #7

Acho que é altura de debater o grande assunto desportivo: "quem é melhor, Messi ou Ronaldo?" Aliás: não vou debater quem é melhor, mas antes debater quem debate quem é melhor. Minto: vou antes debater, quem debate quem é melhor, usando um tipo de argumento muito específico. Ok pronto, para resumir, vou tecer um comentário a pessoas que usam este argumento: "Eu acho que o Ronaldo é melhor que o Messi porque é português, como nós, e temos de apoiar o que é nosso." Confesso que é um tipo de argumentação que não leva a lado nenhum. É um raciocínio patriótico que não tem lógica, mas que acaba por ter lógica, porque ser patriótico não tem lógica e, ao dizeres um comentário patriótico, tem lógica não dizeres algo com lógica. Essas pessoas, no fundo, o que estão a tentar dizer, é que preferem o Ronaldo ao Messi, porque tanto a sua mãe e a mãe do Ronaldo pariram no mesmo território nacional. É uma escolha, a nível desportivo, que não tem nada a ver com desporto. É que estão a preferir alguém pela nacionalidade, como se isso fosse responsável por um hat-trick numa final da Champions. Eu conheço uma pessoa que também preferia alguém pela nacionalidade, mas infelizmente, acabou por causar uma guerra entre 1939 e 1945. Há inúmeros argumentos válidos que podiam ser usados para esta ocasião, além desse, que parece que foi retirado num excerto de um partido nacionalista. Deixo com três que fazem parecer uma pessoa equilibrada.

Argumento válido número 1: Eu acho o Ronaldo melhor que o Messi porque admiro mais o seu estilo de jogo mais completo. 
Argumento válido número 2: Eu acho o Ronaldo melhor que o Messi porque fez história, tanto no Real Madrid, como no Manchester United. 
Argumento válido número 3: Eu acho o Ronaldo melhor que o Messi porque, apesar de ser um extremo, marca tantos golos como o Messi, que joga a avançado. 

Não parece ser muito difícil. É que o argumento patriótico tem outra agravante: faz perder credibilidade. Se proferes esse argumento, deixas de ter credibilidade com os teus amigos. Eles vão deixar de pedir a tua opinião. Sabes aquele amigo que está a pensar comprar um carro, mas está indeciso entre dois modelos? Esquece, ele não quer saber o que tu achas. Mesmo que quisesse a conversa não passava disto. 

- “Sabes, estou indeciso entre o Renault, de dois lugares, e o Citroen. Qual é que achas que é melhor?” 
- “Eu acho que o Citroen é melhor que o Renault porque há uma fábrica, em Famalicão, que produz os calços dos travões e temos de apoiar o que é nosso.”

11.6.14

Delírios Declarativos #6

É capaz de não haver várias maneiras de passar numa passadeira. Apesar de serem todas legítimas, a mais usada, pela generalidade das pessoas, consiste em locomover o corpo de um passeio ao outro, com o auxílio da passagem para peões. No entanto, há várias alternâncias neste simples processo. Há, pelo menos, três grupos que fizeram, de um simples atravessar de rua, um laboratório de análise comportamental.

Há o grupo das pessoas que começa a correr enquanto atravessa a passadeira. Atenção: eles não estavam já a correr e, por isso, mantém o ritmo a atravessar; eles estavam a caminhar e, de súbito, aceleram o passo, fazendo uma espécie de 5 metros livres, até ao outro lado da via. Confesso que, sempre que vou no carro e vejo alguém a fazer isto, fico com vontade de o atropelar, porque parece que está a fugir de um crime que cometeu e a troca de olhares comigo despertou-o para começar essa fuga. Eu percebo, essas pessoas estão a tentar ser simpáticas: aumentam a passada para eu ficar menos tempo à espera; mas a verdade é que só me fazem poupar meio segundo. Ainda para mais, ao começarem a correr, aumentam o risco de se magoarem, podendo ficar estendidos no chão à espera de assistência.

O segundo grupo é das pessoas que agradecem a atravessar na passadeira. Um bocado estranho para mim. O que é que eles estão mesmo a agradecer? “Obrigado por não me ter passado por cima.” “Obrigado por ter cumprido com as leis do trânsito.” “Foste obrigado a parar por minha causa e por isso presto a minha homenagem a ti, jovem condutor.” Eu acho que eles pensam que paramos o carro para sermos simpáticos, como uma espécie de boa educação. A verdade é que, apenas paramos, para diminuir o risco de cometer um homicídio. É tão simples quanto isso. A única razão aceitável para fazer esse gesto de agradecimento, de saudação é se nos conhecermos de algum lado. “Então João, como é que estás? Gosto em ver-te.”

O último grupo é o mais difícil de digerir: são as pessoas que quando paramos o carro, para atravessarem, não atravessam e dão um sinal para avançarmos. Ou seja, imobilizamos um meio de transporte de meia tonelada, cumprindo com as leis que nos obrigam a parar; demonstramos ser cidadãos obedientes com a sociedade em que estamos inseridos, procurando criar harmonia e bem-estar; no entanto, a pessoa que está para atravessar, pelos vistos, acha que não somos dignos da sua presença. Até podia dar o benefício da dúvida e achar que não queria atravessar naquele momento, mas depois consigo ver pelo espelho do carro que avançou de imediato. Uma coisa é certa: nunca ninguém fica satisfeito de parar numa passadeira. E pior ainda: nunca ninguém fica satisfeito de parar numa passadeira, para ninguém passar numa passadeira. É uma péssima sensação. Por momentos, quando este cenário acontece, parece que os papéis ficam invertidos: a pessoa pára para passar o carro na passadeira. Ao abrir este precedente, nem quero imaginar as possíveis novas leis rodoviárias.

4.6.14

Delírios Declarativos #5

Confesso que há lições de vida a revelarem-se importantes para a formação de um ser humano. Muitas dessas lições são transmitidas através de frases que nos fazem pensar e fazem com que o nosso comportamento se altere. Isso ocorreu-me, na infância, quando a minha mãe profere a seguinte lição: “Se toda a gente se atirasse da ponte, tu também te atiravas?” É uma questão que, para uma criança de 10 anos, é pertinente. A leitura que fiz, na altura, é que devo pensar pela minha cabeça, não me deixar influenciar pelos comportamentos que me rodeiam e nem sempre o que a maioria das pessoas fazem está correcto. É uma lição importante, mas a minha mãe teve o azar de proferi-la, recentemente, já para um adulto de 23 anos. Se há 13 anos a minha mãe não teve resposta à questão que me colocou, desta vez foi muito diferente.

Deixo-vos com a minha refutação: “Antes de mais, espera só um segundo: toda a gente? Estás-me a dizer que todos os habitantes deste planeta iriam cometer um suicídio em larga escala? O que os levaria a fazer uma coisa dessas? Admito que é de se tirar o chapéu a organização deste evento. Não deve ser nada fácil organizar a extinção de toda uma espécie. É que organizar uma festa de anos já dá o trabalho que dá, porque há sempre um que não gosta do restaurante, ou nesse dia já tem coisas combinadas, ou as pessoas que vão à festa não são do seu agrado. Agora, organizar a destruição de uma raça e todos os intervenientes estão disponíveis para esse acontecimento, revela um timing perfeito. É que, ainda por cima, é um péssimo evento, onde vais ter que acabar com a tua vida. Se fosse para chafurdares uma noite inteira com a Charlize Theron, acho que aí percebia a adesão total dos habitantes da Terra. Mas não é. Idosos, crianças, bebés, doentes acamados, grupos terroristas que durante toda a sua vida lutaram entre si e - a parte mais engraçada -, pessoas famosas vão participar nesta cerimónia. Pessoas famosas! Já imaginaste a sensação que é lançares-te de uma infraestrutura com o plantel do Real Madrid e com o elenco do Game of Thrones ao lado? A verdade é que há, pelo menos, um grupo de pessoas que não deve achar piada a isto tudo: as pessoas que se suicidam em pontes. É que, normalmente, é um momento egoísta, solitário, onde tentam passar os seus últimos minutos, na Terra, em harmonia. Agora, com isto tudo, já não tem o mesmo gosto pôr fim à vida. E já agora: que ponte é que vai receber este evento? Vai ser como no Campeonato do Mundo, onde é feito um sorteio e os países interessados apresentam a sua candidatura? Mãe, onde é que vais com essa mala de viagem? Mãe, fala comigo! Não podes sair de casa sem me dizer nada! Mãe?! Mãe?!?!”

28.5.14

Delírios Declarativos #4

Há casos de pais que tratam os filhos com uma espécie de alcunha. Por exemplo: tratam Catarina, por Cate; tratam João, por Jota; Patrícia, por Ticha. Ok, não é bem uma alcunha. Também não é bem um diminutivo. Basicamente é um novo nome dado ao progenitor. Esta acção acaba por ser considerada usual não só no meio familiar, mas também pela parte de amigos ou conhecidos. É uma demonstração de carinho, de afecto, de intimidade com a pessoa, mas que, em relação aos pais, revela pouca astúcia. É que estamos perante as pessoas responsáveis pela nomenclatura do filho. Se estás a tratar o teu filho com outro nome além do dele, quando coube a ti tomar a decisão, então porque é que não o chamaste dessa maneira?

Foste o responsável do nome que o irá identificar para o resto da sua vida; foste tu que lutaste e arranjaste argumentos, com a tua sogra, para dares o nome de um antigo deus ancestral, porque tem o significado de uma pessoa lutadora, corajosa e com grave problema de ácido úrico. E já agora: se é verdade que o nome pode já ter pertencido a um deus da sabedoria, também não deixa de ser verdade que, desde então, o nível de prestígio desse nome foi sempre a descer. Pode já ter pertencido a um deus da antiga Grécia, mas também já pertenceu a um centurião romano que tinha um fetiche em entupir os aquedutos da cidade com os próprios excrementos; já pertenceu a um cruzado que fazia muito barulho a comer e por isso foi descoberto e morto pelos mouros, num bordel, perto de Constantinopla; já pertenceu a um ajudante de um navegador, na época dos Descobrimentos, que a única coisa que descobriu, nas suas viagens, foi o astrolábio que pensava tê-lo perdido em casa da avó; e já pertenceu a um deputado. És o responsável e sempre que o chamas de outra maneira devias estar a demonstrar arrependimento.

Como é que vais reagir quando o teu filho chegar a casa, da escola, a chorar, porque lhe estão a chamar nomes? Que autoridade vais ter? A pessoa que o conhece há mais tempo, que sabe o nome de cor, mesmo assim está a tratá-lo doutra maneira. É que parece que estás a gozar com o miúdo. Depois, claro que o Cajó, da turma de mecânica, o chama de "Afunda Piças".

1.4.14

Delírios Declarativos #3

Um destes dias, eu e a minha namorada estávamos a almoçar arroz de pato. A certo momento ela declara: “Este arroz do pato está bom.” A sua maneira doce com que disse estas palavras, ao aprovar a iguaria que estava diante os nossos olhos, fez com que, após uns segundos de reflexão, eu respondesse desta maneira: “Arroz do pato? Isso implicaria que, o arroz que estás a comer, pertencesse ao pato. De alguma forma, o pato conseguiu adquirir uma parcela de arroz e fez com que esse arroz ficasse em seu nome. Consegues imaginar o trabalho que ele deve ter tido? E já nem estou a falar em termos jurídicos. Estou mesmo a falar, do facto, da maioria dos patos não saber onde se compra arroz. Ele, provavelmente, teve que sair do seu ecossistema e andar à procura de um sítio para comprar arroz. Deve ter falado com gaivotas, cegonhas, andorinhas a perguntar o melhor sítio para comprar. Mas sabes que mais? Elas também não sabem. Teve que ser ele, sozinho, a procurar durante dias, meses, anos até encontrar. Quando pensamos que tudo estaria a correr bem, o pato depara-se com o preço do arroz. Ele não tinha maneira de comprá-lo. A única solução seria roubar. Voltou a casa e teve meses a pensar num plano para roubar o arroz sem ser apanhado. Planeou, planificou, estudou tudo ao pormenor para que, quando chegasse o dia, nada falhasse. Depois de semanas a adiar, finalmente toma a grande decisão. Infelizmente, ao chegar ao local, depara-se que não tem maneira de transportar o arroz. Volta para casa e perde mais uns meses à procura da solução, até que a encontra. Com a ajuda de um pelicano, que era irmão de uma amiga de infância da mulher, consegue roubar o arroz sem ser apanhado. Sabes qual é a parte frustrante disto tudo? É que os patos não gostam de arroz. Para que é que ele precisava de arroz? Estamos, ainda por cima, a lidar com um pato que faz coleccionismo, ou sofre de problemas mentais. Apesar disto tudo, sabes o que é que é mais grave? É que estamos a comer o pato junto com o arroz que ele tanto lutou para ter.” Após a minha resposta, senti que a minha namorada tinha ficado afectada e, depois de ter ingerido o que tinha na boca, responde-me: “Oh, arroz de pato. Enganei-me.”

19.3.14

Delírios Declarativos #2

Todos nós já ouvimos a expressão “a dar voltas no túmulo”. Por exemplo: “Sá Carneiro deve estar a dar voltas no túmulo”, “Fernando Pessoa está a dar voltas no túmulo”. É uma expressão muito usada, que serve como uma espécie de homenagem a um trabalho realizado que, de certa forma, está a ser posto em causa. Há quem veja isto como sinal de respeito, eu vejo como tentativa de homicídio.

Não vamos branquear as coisas: se está a dar voltas no túmulo é porque está vivo. E ainda com força suficiente para efectuar a volta. O grave é que, pelos vistos, muita gente está a par dessa condição. Eu já vi miúdos, graúdos e espadaúdos a usarem esta expressão a meio de uma conversa. O mais chocante é que a pessoa que está a ouvir a outra pessoa a pronunciar a frase não mostra qualquer reacção, qualquer grito de revolta. Estaríamos à espera de uma reacção de repúdio, de nojo, em completo choque e com a esperança de ainda ir a tempo de evitar males maiores, isto porque acabou de ouvir um testemunho de um dos crimes mais grotescos da humanidade. Algo deste género: "O Camões, neste momento, deve estar a dar voltas no túmulo." "Então sabes que ele está vivo e não dizes nada a ninguém?! Como é que é possível?! Já sabes disso há quanto tempo?! Achas que ainda vamos a tempo de o salvar?! Rápido, para os Jerónimos!" Atenção que isto levanta outra questão mais grave: alguém anda a enterrar estas grandes personalidades da história e já o estão a fazer há séculos. De escritores, a políticos, passando por pintores a cientistas. Basicamente, em todas as áreas, as personalidades mais relevantes, estão a ser enterradas vivas. Uma autêntica calamidade a referências do contemporâneo, onde a maior parte dos cidadãos sabe e lida com a maior das naturalidades.

Mas quem é que pode estar por detrás disto tudo? Quem é que lucraria com o enterro de grandes individualidades? Porque é que ainda não se viu uma comissão de inquérito a querer apurar os factos? Porque é que os serviços noticiosos continuam a informar-nos do falecimento destas pessoas? São muitas perguntas que ficam por responder e que deixam, certamente, a Agatha Christie a dar voltas no túmulo.

6.3.14

Delírios Declarativos #1

Ando sempre com um guarda-chuva no carro. É uma acção que parece revelar um elevado grau de perspicácia da minha parte. Em caso de aguaceiros, estou sempre precavido, evitando que apanhe uma molha do carro até ao local que me dirijo. Nada deste procedimento parece levantar quaisquer problemas: estou no carro, começa a chover, uso o guarda-chuva que tenho na mala; vou ao sítio que pretendo, volto para o carro e coloco, de novo, o guarda-chuva na mala. Simples e conveniente? Errado. Eu explico: eu deixo o meu carro na rua. De minha casa ao carro são, para aí, 50 metros. Há dias que apanho chuva, logo vou precisar de uma guarda-chuva que me leve de casa até ao carro. O guarda-chuva que tenho na mala, neste caso, não me traz utilidade, então tenho que levar um outro guarda-chuva de casa ao carro. Chegando ao carro, deixo este novo guarda-chuva na mala, juntamente com o outro. Ora, como muitas vezes acontece, depois quando chego a casa, mais tarde, já não está a chover, por isso não vou precisar do guarda-chuva do carro a casa. Então, simplesmente deixo o segundo chapéu-de-chuva (estou farto da palavra guarda-chuva) no meu carro. Perguntam vocês: afinal, onde está o problema? O problema é que, neste momento, tenho 5 guarda-chuvas no meu carro. 5! Tenho 5 guarda-chuvas amontoados na parte de trás do carro. Parece que estou a fazer recolha ao domicílio. Atenção, que há mais um problema: neste momento, não tenho guarda-chuvas em casa. Todos eles são meus reféns na bagageira do carro. Como não tenho nenhum em casa, apanho chuva até chegar ao veículo; apanho chuva até chegar ao veículo, apanho uma constipação; apanho uma constipação, apanho dos meus pais porque apanham chuva o dia todo, porque, pelos vistos, estou a fazer coleccionismo na parte traseira do meu carro. Simples e conveniente? Podem ter a certeza que sim.

3.2.14

Os Tios

Sou capaz de começar com uma declaração: eu, João Bastos Vieira de Melo, não tenho tios. Eu sei que é um depoimento que pode levar a diferentes interpretações. “Não tem tios? Isso quer dizer que os assassinou?” “Não tem tios? Isso quer dizer que os pais só tiveram irmãs, e essas irmãs não se casaram?” “Não tem tios? Isso quer dizer que não sabe quem são os pais biológicos, porque o abandonaram nos Bombeiros Voluntários de Albergaria-a-Velha, que por sua vez entregaram-no a um Centro de Acolhimento onde foi abusado e agredido ao longo destes anos, deixando-o com marcas para o resto da sua vida, transformando-o assim, num ser humano resignado e sem força de espírito para conseguir encontrar o rasto da sua família e, com isto, os seus tios?” Creio que a interpretação mais correcta é mesmo esta: não tenho tios, porque tanto o meu pai como a minha mãe são filhos únicos. 

Nos tempos que correm ser filho único é perfeitamente normal. As pessoas casam-se mais tarde, têm estabilidade financeira mais tarde e é natural optarem só por ter um filho. Ora, no tempo dos meus pais não era bem assim. Estamos a falar da década de 60. A década onde ter um filho só seria aceitável se estivéssemos a falar no espaço temporal de um ano; a década onde as pessoas jogavam ao bingo, mas com o número de filhos. “Número 27. Alguém tem o filho número 27?”; a década onde a reprodução era de tal maneira elevada, que os nascimentos, em vez de serem documentados pelos médicos, eram documentados pelo National Geographic. Basicamente, toda uma década, de completa cowboyada, onde os meus avós foram as únicas pessoas com a sensatez de pensarem: “isto, se calhar, vai dar jeito para um dos nossos netos escrever no futuro.”

Bem sei que, tanto os meus avós paternos e maternos, não previam que o seu único filho constitui-se família com um sujeito na mesma situação familiar. No entanto, de certa forma, já estou conformado que não tenho tios e que nunca saberei o que é ter tios. Nem sei que tipo de relação se tem com esse parente, daí surgirem várias questões pela qual eu não tenho resposta: como é que é uma relação com um tio? Como nos comportamos ao lado de um tio? É uma relação mais formal que os pais? É uma relação menos formal que os avós? Um tio pode castigar? Podemos levar uma lambada de um tio? Um tio tem a legitimidade de se largar ao nosso lado? Eu sei que para a maioria das pessoas estas perguntas não fazem sentido – principalmente para o King Jong-un -, mas são questões de uma pessoa que, por mais que tente, jamais as conseguirá responder. 

Acho que com isto tudo já deu para chegar a uma simples conclusão: a minha família não é propriamente vasta. Para terem noção de como a minha família é pequena, nos jantares de família não é preciso ir buscar mais bancos à cozinha. Eu não tenho árvore genealógica, tenho um pau genealógico e acho que não há maneira nenhuma de ter a aceitação da comunidade cigana. No entanto, apesar de não ter tios e a minha família ser pequena, eu, se pudesse, não mudava nada. Já me disseram que é muito melhor ter tios do que não ter. Sinceramente, não há maneira de saber se é melhor ou não. Vocês, que têm, nunca saberão a sensação de não ter, tal como eu nunca saberei a sensação de ter. É como dizer: este filme que vi é melhor que aquele filme que não vi. Uma coisa é certa: eu não me importo nada de não ter tios. Sabem porquê? Porque, se tudo correr bem, vocês, no futuro, vão ter que enterrar tantos tios. É incrivelmente assustador o número de funerais que vão ter que assistir num futuro próximo. Vamos supor que os vossos pais são da mesma geração que os meus e tiveram, em média, 4 irmãos. Esses 8 tios casaram-se, dando o total de 16 tios. Vamos agora supor que a idade deles varia dos 48 aos 63. Ora, segundo os meus cálculos, de 2031 a 2046, vocês vão ter a agenda cheia de cerimónias fúnebres. Eu se fosse a vocês aderia ao cartão de pontos. É que já nem vale a pena marcar aquelas férias para Ibiza, porque antes do embarque vão receber o telefonema com as notícias. Bem, para terminar, acho que também sou capaz de acabar com uma declaração: eu, João Bastos Vieira de Melo, não tenho tios e afinal gosto de não os ter.

2.11.12

O Congelador



Uma casa tem que ter a harmonia que não se encontra na rua. É o local, o nosso local, o nosso cantinho no espaço cósmico. A casa foi concebida para nos acolher, para nos refugiar, para nos sentirmos revigorados. Tem que ser a nossa fortaleza entre a serenidade e o caos que encontramos fora dela. Essa serenidade seria facilmente concedida se não tivéssemos um congelador em casa. De todos os electrodomésticos que temos em casa o congelador é o que mais destabiliza a harmonia de um ser humano. O congelador tem vários factores que causam essa destabilização. 

O primeiro factor é o de nunca ser grande de mais; nunca vimos um congelador que o tamanho fosse apropriado às nossas necessidades. A verdade é que também não pode ser grande de mais, porque se for, provavelmente, somos serial killers. 

O segundo factor é o de nunca estar ao nível dos olhos; ou é em baixo, ou é no andar de cima, mas nunca num local de fácil acesso. Parece que foi desenhado, única e exclusivamente, para hobbits e para jogadores da NBA. 

O terceiro factor é o de não ter luz própria, ao contrário do frigorífico. Aí dá para ter bem noção do que é feito este aparelho eléctrico. O frigorífico é como um restaurante luxuoso, que sempre que abrimos a porta somos inundados pela sua claridade e simpatia: “Bem-vindo de volta! Venha conhecer a gama de alimentos que dispomos para si!” O congelador não; é como uma taberna numa rua sem luz: “Olha quem é o gajo! Não consegues ver?! Pagasses tu a luz, meu sebadola! Toma lá as comidas que estão para aqui, num estado lastimável, e põe-te a andar daqui!” 

Apesar destas características depreciativas nós precisamos de contar com o seu serviço. A sua utilização, na teoria, parece muito acessível: abrir e colocar/tirar os alimentos. De facto, parece ser muito fácil, mas na verdade, quando passamos para a prática constatamos que não é bem assim. Desde logo, temos problemas na fase do “abrir”. Abrir um congelador não é como abrir uma porta de um carro, ou uma porta de casa. Nestes exemplos, nós usamos sempre a mesma força para abrir essas portas; com o congelador, essa força, varia consoante a posição da Lua em relação à Terra e da Terra em relação ao Sol. Nunca sabemos a força exacta que temos que usar para o abrir; sempre que o abrimos parece que, o seu interior, guarda um tesouro escondido dos Incas: "Ok, vamos lá recolher este magnifico tesour...ah, merda...são douradinhos de pescada!" Atenção: nestas situações estamos a falar de abrir o congelador durante o dia, porque, se for à noite, a história é outra. Se alguma vez tentaram abri-lo à noite: muitos parabéns, provavelmente acordaram todas as pessoas num raio de 2 km, graças à perfeita simulação de uma avalanche do Kilimanjaro! Durante a noite tem que haver destreza, perícia e paciência, como se estivéssemos a abrir um cofre de um banco: “Calma, calma, devagar, isso…FILHO DA PUTA!!!” Apesar destas experiências há, ao menos, um consolo: estas lutas que já tivemos para tentar abrir o congelador seriam dignas de Homero as registar numa das suas epopeias. 

Após o problema na fase do “abrir”, passamos agora ao problema de “colocar/tirar”. Uma das grandes virtudes para se colocar/tirar alimentos no congelador é saber conciliar isso, com a grande versatilidade em jogar Tetris: as peças têm que estar perfeitamente encaixadas. Podemos abrir o congelador e tirar umas costeletas, mas se embarrarmos em alguma coisa, pelo mais leve que seja, já não vamos conseguir fechá-lo. O congelador é o Mikado dos electrodomésticos; nem o nosso pai, que é o que organiza as malas no carro, quando vamos de férias, consegue voltar a fechá-lo: “Eu consigo colocar 4 malas de viagem num Smart, mas agora colocar almôndegas no congelador é impossível!” 

De facto, já conseguimos perceber por que é que o congelador tem essa capacidade de nos rebaixar. No entanto, é preciso olhar também para esse aparelho no ponto de vista da comida: o congelador é o campo de concentração dos alimentos. Imaginem partilhar um espaço fechado, frio e do tamanho de uma gaveta das cuecas, com estrangeiros, onde sempre que alguém é escolhido nunca mais volta a aparecer. Sim, aquilo tem estrangeiros. Tem franceses, os croissants; tem italianos, as pizzas e as lasanhas; tem brasileiros, as picanhas; tem noruegueses, os bacalhaus. O Primo Levi bem que se podia ter lembrado de contar as experiências horríveis que passaram os feijões congelados, em Birkenau, em detrimento da sua própria experiência; mas pronto, decidiu ir pelo caminho mais simples da fama. É, por estas coisas, que sempre que a minha mãe coloca um saco de pão no congelador, eu sofro com o que eles estão a passar e ouço-os a gritar desesperados dentro da minha cabeça: “Eu pensava que tu me ias comer hoje! Por que é que compraste 6 carcaças se sabias que só comerias 2?! Não nos faças isto!”.

Como podemos constatar, vários intervenientes são subjugados por esse electrodoméstico. Bem sabemos que, no fundo, nos é útil, mas o sofrimento subjacente terá que ser tido em conta. A conservação de alimentos já causou demasiados estragos internos no nosso organismo. É altura de fazermos alguma coisa! Quantas famílias já foram acordadas por abrir o congelador? Quantas luxações do ombro foram causadas por abrir o congelador? Quantas horas foram perdidas a pensar numa maneira de encaixar as ervilhas congeladas? Quantos papos-secos já foram esmagados pelos cordon bleu? São estas questões que as gerações futuras terão que saber resolver, de maneira a que a harmonia nos nossos lares, nas nossas famílias, seja uma constante. 

12.10.12

A Tartaruga



Tenho um fascínio por seios, pelo comportamento humano e pela maneira péssima de começar textos. O comportamento humano revela-nos sempre surpresas, por mais abstratas que sejam, que têm a capacidade de alterar a maneira de estar na vida. Um desses comportamentos, que teve essa capacidade, foi quando nos ofereceram uma tartaruga. 

A primeira medida a ser tomada nestas ocasiões é cortar relações com essa pessoa, porque temos que ser sinceros: a tartaruga é dada a alguém quando não se faz a mais pequena ideia do que dar a essa pessoa; é o cupão da FNAC do reino animal. Até os Reis Magos que deram ouro, mirra e incenso ao filho de Deus não se lembrariam de dar um réptil a alguém. 

Atenção: não tenho nada contra tartarugas; acho que são uma excelente companhia, principalmente se estivermos em coma. Agora, o que me transtorna mais é a ideia de termos que conviver com um ser que é tão diferente de nós; é como juntar, num colar, um diamante e uma pedra-pomes. Acho até que este tipo de convivência com seres tão díspares deve deixar Deus irritado: “Porque caralho é que uma tartaruga e um homem estão no mesmo espaço fechado?! Eu não criei os ecossistemas só porque é giro criar ecossistemas. Voltem para os vossos sítios, por amor de mim!” – terá dito o Criador. 

Mas ter uma tartaruga como animal de estimação, não é a mesma coisa que ter um gato, ou um cão; primeiro, porque a tartaruga precisa de um aquário; um aquário que faça com que o animal se sinta como se estivesse em casa. Ora, eu não sei ao certo de onde estes animais vieram, mas calculo que não tenham vindo de um sítio com palmeiras de plástico. A sério, qual era o plano das pessoas que criaram estes aquários? É que estamos a falar de animais que habitam a Terra há mais de 200 milhões de anos! 200 MILHÕES DE ANOS!!! Os dinossauros extinguiram-se há mais de 65 milhões de anos, quando um asteróide colidiu com a Terra, vitimando grande parte dos seres vivos da época. Sabem quem é que sobreviveu à colisão?! As tartarugas! E quem é que querem enganar ao colocar palmeiras de plástico nos aquários?! As tartarugas! Estão a imaginar a reacção do vertebrado ao chegar ao aquário? “Uau, isto é Vanuatu?! Olha-me para estas palmeiras…de 10 centímetros…onde nenhuma folha se mexe…e com made in china escrito no tronco…espera aí…eu fui transformado num Playmobil?!” 

Apesar disto tudo, a tartaruga é mesmo considerado um animal de estimação; mas a verdade é que não consigo considerá-la como tal. Nunca vi uma tartaruga a ronronar, como os gatos fazem; nunca vi alguém a gabar-se de ter uma tartaruga bem treinada, como os donos dos cães fazem; nunca vi uma história de uma tartaruga que salvou o seu dono de um incêndio, porque elas não querem saber dos seus donos: “Ah tens a casa a arder?! Eu até te salvava, mas estou num sítio cheio de água. Temos pena.” A verdade é que os donos também não querem saber delas. Nunca vi cartazes na rua a dizer “procura-se tartaruga”; também porque é impossível perder-se um animal deste tipo: “Onde é que está a tartaruga? Ah, está exactamente no mesmo sítio que está há mais de 2 horas.” Isto já para não falar da diferença abismal de tamanho que podemos encontrar dentro da sua espécie; vai da típica tartaruga de água doce, que temos no nosso aquário, à tartaruga gigante que encontramos na Ilha Galápagos. Eu não conseguiria ter um gato em casa, se soubesse da existência de uma espécie de gato do tamanho de um boi; isso é de loucos! 

Pronto, também temos que dar algum crédito a este animal verdejante. Graças a ele conseguimos fantasiar algo que sempre sonhamos fazer às mulheres: quando nos estão a chatear é virá-las ao contrário e vê-las a espernear que nem doidas. Se tudo correr bem, a evolução da espécie humana, dentro de algumas gerações, virá com esse detalhe que poderá mudar o comportamento humano, e, com isso, nunca mais iremos receber tartarugas.

4.6.12

Maus da Fita Métrica #8



Quem não se lembra dos míticos piqueniques em família no pinhal? Aquelas temporadas, onde o sol e a natureza colidiam num espectro de tranquilidade; onde os sorrisos invadiam a cara dos familiares que amamos; onde o cheiro da comida da avó criava em nós um salivar acentuado. Guardarei sempre comigo os sentimentos de tristeza, saudade e nojo. Tristeza, porque o tempo já lá vai e nada poderei fazer para o trazer de volta; saudade, porque se passava um bom tempo junto das pessoas mais queridas; nojo, porque, a certa altura, aparecia sempre a súbita vontade de cagar. 

Nada tão estimulante, como estar a comer um bolinho de bacalhau caseiro e ser interrompido pelo intestino “o” grosso a roncar, qual Fiat Uno de 1989. A partir desse momento apenas temos que nos preocupar com uma coisa: que a nossa avó tenha trazido guardanapos extra. Não vale a pena negar o óbvio e tentar aguentá-lo para o resto do dia, porque sabemos que, assim, nunca mais nos vamos conseguir sentar direito. Temos mesmo que enfrentar a besta. 

Após possuirmos os guardanapos, é altura de partirmos em direcção ao desconhecido. Uma última despedida com um abraço caloroso a cada familiar, porque à nossa frente, uma vastidão de pinheiros bravos nos espera. Desde o momento em que partimos, o nosso problema reside em tentar encontrar um sítio onde a vegetação faça o seu papel de camuflar as entranhas do nosso rabo, o mais possível. Resolvido o problema, é então, altura de rezarmos a Nossa Senhora do Bom Despacho, para que o acto fisiológico seja, digamos, ligeiro. Não é. É massivo. A resina dos pinheiros até fica intimidada. Parecemos caçadores atrás de bambis, onde a caçadeira foi substituída por uma bisnaga hormonal. Temos então que revelar o Bear Grylls que há em nós. Só que, enquanto ele pega em folhas e paus para fazer uma fogueira, nós pegamos para tapar uma caganeira. Temos maneiras de pensar muito idênticas. 

Por mais que neguemos, a verdade é mesmo esta: a maior cagada das nossas vidas foi dada num piquenique de família, onde guardamos connosco a tristeza de não pudermos repetir. Volta para trás tempo, volta para trás...

17.5.12

Maus da Fita Métrica #7



Estamos num país onde a tourada e o Malato ainda passam em canal aberto. A tourada, para mim, faz sentido ainda passar na televisão, porque temos que ser sinceros: a tourada é um conceito engraçado. Vejam isto numa perspectiva bélica: é um ser humano a enfrentar um touro. Querem melhor premissa para algo que vai dar merda? É impossível. Mas, vá, mesmo assim, não consigo perceber muitas coisas em relação à tourada. 

É uma corrida de touros, mas que, olhando para o público, é patrocinada pela Lacoste. Os forcados que são consideradas pessoas de coragem e de respeito, continuam a vestir-se com leggings. Não consigo perceber, também, essa contestação que se faz aos toureiros, acusando-os de serem pessoas estúpidas. Estúpidas?! No meu ponto de vista, eles são muito inteligentes. Eles, por acaso, vão tourear completamente indefesos? Claro que não! Vão com um puto de um cavalo grande, farpas de metro e meio e o touro tem uma “protecção”. “Protecção” no lombo para aleijar menos ao touro? Não, não. Uma protecção nos cornos, que, curiosamente, é o sítio mais perigoso desse respectivo bovino. Genial. No fundo, a tourada é uma espécie de corrida entre um Fiat Uno e um Lamborghini, só que o Lamborghini só pode usar a primeira mudança. 

Apesar das minhas dúvidas, admito que é um evento muito controverso. Muita gente acusa a tourada de fazer lembrar os combates de gladiadores na Roma antiga. Não concordo. Os gladiadores fazem lembrar o Virtual Fighter, a tourada faz mais lembrar o Carmageddon. Vá, e o Saw, porque, é possível que isto tenha sido criado pelo Jigsaw. Já estou a imaginar: apanham o touro, e só depois é que o acordam na arena.

- Olá bovino da ganadaria “Murteira Brava”. Eu quero jogar um jogo. Neste momento estás numa arena, sem hipótese de escapar. A tua arma mais letal está tapada. Dentro de alguns minutos, este mesmo espaço estará cheio de pessoas que irão aplaudir a tua morte lenta, e toureiros que irão provocar-te imensas dores. Se conseguires sobreviver, terás, depois, 8 homens vestidos de leggings prontos para te imobilizar. Se mesmo assim sobreviveres, mais tarde ou mais cedo, irás virar picanha num rodízio brasileiro. Vá, eu admito, estás fodido! Viver ou morrer faça a sua escolha. 

9.5.12

Maus da Fita Métrica #6



As lojas de roupa são grandes de mais. Não sou só eu que o digo. As próprias mulheres admitem. E quando uma mulher admite que o seu mundo de sonho é capaz de ser exagerado de mais, é razão para estarmos preocupados. 

A Zara sempre foi o calcanhar de Aquiles para os homens. Uma espécie de Rally Dakar urbano, onde a estética é algo que deve ser tido em conta. O co-piloto é, neste caso, uma mulher que apenas diz as palavras “por aqui”, “anda”, “despacha-te” e “cuidado com a curva à direita dos cai-cai”. É, sem dúvida, uma prova de fogo para qualquer homem. Só os que trazem na bagagem um treino intensivo na Pull & Bear, na Bershka e na Stradivarius é que conseguem ultrapassar estas dificuldades. No entanto, há cerca de 3 anos, apareceu um novo fenómeno, em Portugal: a Primark. 

Ora, se a Zara é o Rally Dakar, a Primark é a Volta ao Mundo em 80 dias. Aquilo tem o triplo do tamanho da Zara, e em vez de uma loja, pode ser considerado um peddy-papper. Ao que parece, só mesmo com o visto regularizado é que podemos entrar no estabelecimento. Quanto ao sofrimento para o sexo masculino: é demasiado grande. Desde o momento em que entramos, deparamo-nos com várias razões para não acreditarmos em Deus. Tem tudo o que achamos mau, em quantidades maiores. Se na Zara há uma secção para as malas, na Primark há um T1 duplex para as malas; se na Zara há casacos de lã, na Primark há um rebanho de ovelhas; se na Zara há o último grito da moda, na Primark há o antepenúltimo, o penúltimo, o último e o desclassificado grito da moda. É aterrador! Dar o primeiro passo na Primark é quase tão corajoso quanto o passo que o Neil Armstrong deu na Lua, em 1969. A grande diferença reside no que dizemos: “isto é um pequeno passo para o homem, mas um grande…espera aí! A sério? Um andar inteiro com leggings? Foda-se!”

27.3.12

Maus da Fita Métrica #5



O provérbio já é antigo: mãe há só uma. E sejamos sinceros, acho que chega muito bem uma. O amor de mãe pode ser único, mas não menos singular são os comentários de mãe. Sabemos que somos filhos de uma grande mulher, quando somos confrontados no nosso dia-a-dia com comentários estapafúrdios pela parte da nossa progenitora - faz parte do seu código genético. Mãe que é mãe alerta para os perigos minuciosos da sociedade, como se tratasse de uma investigação do caso Maddie. As suas observações, normalmente, acontecem dentro de casa, onde aborda várias temáticas que só uma sensibilidade apurada chegaria lá. Um comentário bastante usual ocorre na cozinha: “cuidado com a faca!” – como se esse objecto de inox fosse um pedófilo solto em casa. Ela diz-nos para termos cautela, contudo, deixa-nos usar o talher a nosso belo prazer. Esta acção é o equivalente a alertar-nos para os malefícios da droga, e logo de seguida, dar-nos um calhau de haxixe.

Outro comentário muito bem conseguido, com um lindo toque de ironia, é o que ocorre quando nós vamos sair, e estranhamente, levamos o telemóvel connosco: “agora, perde o telemóvel!” – que delicadeza! Porque quando saímos à noite, é mesmo com esse propósito de perder o instrumento mais importante das nossas vidas. Esta observação revela, também, uma vontade súbita de perdermos o telemóvel, para depois quando chegarmos a casa esfregar-nos na cara: "vês?! quem é que tinha razão?"

Eu percebo que isto é uma maneira de demonstrar amor, através da preocupação constante pelo nosso bem-estar. Percebo, também, porque é que Deus nunca teve mãe. Já imaginaram como seria a criação do Universo, se o Criador tivesse ao lado a sua mãe?

Mãe: Ainda não comeste hoje. Nem penses que vais criar o universo sem o pequeno-almoço tomado!

Deus: Mas, mãe, só tenho sete dias para entregar este projecto na escola.

Mãe: Agora, atrasa-te e não o entregues a tempo!

Deus: Não te preocupes! Já tenho um plano para um planeta que vai ter vida.

Mãe: Ah, sim? Então tem cuidado com os roubos!