Se eu fosse cartomante, juntava cartas de suicídio ao baralho de tarot só para enganar ainda mais as pessoas. Um paciente chegava ao meu consultório:
Eu: Sente-se, vou começar a baralhar as cartas. Qual é o seu signo?
Paciente: Capricórnio.
Eu: Por onde quer que comece? Saúde, dinheiro ou amor?
Paciente: Pode ser amor.
Eu: Muito bem. Em relação ao amor, saiu-lhe a carta de suicídio da Virginia Woolf.
Paciente: Ui... e o que é que diz a carta?
Eu: Esta é uma carta um pouco negativa, confesso. É verdade que a carta fala na felicidade entre marido e mulher, mas a depressão vai destruí-lo e, eventualmente, vai pôr fim à vida.
Paciente: Que horror!
Eu: Tenha calma. Olhe, em relação ao dinheiro, saiu-lhe a carta “Roda da Fortuna”.
Paciente: Hm...
Eu: Esta carta representa mudança. As energias cósmicas do universo são favoráveis, por isso, vai estar em maré de sorte no que toca ao trabalho.
Paciente: Ok, estou mais aliviado. E quanto à saúde?
Eu: Em relação à saúde, deixe cá ver... olhe, saiu-lhe a carta de suicídio do Kurt Cobain.
Paciente: Mau! E o que é que diz a carta?
Eu: Pelo que consigo ler, perdeu a motivação naquilo que faz e que, mais tarde ou mais cedo, a depressão vai destruí-lo e, eventualmente, vai pôr fim à vida.
28.6.18
18.5.18
Naco #23
No outro dia, apanhei um novo documentário sobre o Titanic. Estavam a anunciar que tinham finalmente a resposta a todos as perguntas à volta do naufrágio do navio. “Novas revelações chocantes!”, “Juntámos todas as peças que faltavam!”, “Um século depois, finalmente sabemos o que aconteceu naquela noite fatídica!” – estavam eles a dizer.
Eu estava a ver aquilo e a pensar: “Realmente, o que é que poderá ter causado o naufrágio do navio que foi contra um icebergue e se afundou no oceano Atlântico? Estas pessoas parecem ter finalmente a resposta!” Eu vi o documentário até ao fim e eles concluíram, para grande surpresa minha, que o que causou o naufrágio foi na realidade um icebergue. Pá, que alívio; finalmente! Safaram-se de boa os outros suspeitos deste caso: Poseidon, a ilha do Corvo e uma onda da Nazaré.
Também do que é que eu estava à espera? “Temos finalmente a resposta a todas as perguntas!” – diziam eles. Sim, claro. Só se a resposta fosse à pergunta: Porque caralho é que ainda se fazem documentários sobre o Titanic?
“Foi o maior navio alguma vez construído e uma das maiores conquistas da humanidade até à época. Os especialistas afirmavam que nem Deus conseguiria afundá-lo, mas a 14 de Abril tudo mudou. O Titanic, na viagem inaugural para Nova Iorque, embate num icebergue e afunda-se nos mares gélidos, causando a morte a mais de 1500 pessoas. Agora, mais de 100 anos depois da tragédia que chocou o mundo, uma equipa de exploradores da Universidade do Yale, chefiada pelo Doutor Jack Muller, vai ao coração do oceano Atlântico, com a ajuda de uma sonda de última geração, tentar perceber porque caralho é que estão a fazer o documentário. Uma nova série original produzida pela National Geographic.”
Eu estava a ver aquilo e a pensar: “Realmente, o que é que poderá ter causado o naufrágio do navio que foi contra um icebergue e se afundou no oceano Atlântico? Estas pessoas parecem ter finalmente a resposta!” Eu vi o documentário até ao fim e eles concluíram, para grande surpresa minha, que o que causou o naufrágio foi na realidade um icebergue. Pá, que alívio; finalmente! Safaram-se de boa os outros suspeitos deste caso: Poseidon, a ilha do Corvo e uma onda da Nazaré.
Também do que é que eu estava à espera? “Temos finalmente a resposta a todas as perguntas!” – diziam eles. Sim, claro. Só se a resposta fosse à pergunta: Porque caralho é que ainda se fazem documentários sobre o Titanic?
“Foi o maior navio alguma vez construído e uma das maiores conquistas da humanidade até à época. Os especialistas afirmavam que nem Deus conseguiria afundá-lo, mas a 14 de Abril tudo mudou. O Titanic, na viagem inaugural para Nova Iorque, embate num icebergue e afunda-se nos mares gélidos, causando a morte a mais de 1500 pessoas. Agora, mais de 100 anos depois da tragédia que chocou o mundo, uma equipa de exploradores da Universidade do Yale, chefiada pelo Doutor Jack Muller, vai ao coração do oceano Atlântico, com a ajuda de uma sonda de última geração, tentar perceber porque caralho é que estão a fazer o documentário. Uma nova série original produzida pela National Geographic.”
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23.3.18
Naco #22
Os livros do "Onde está o Wally?" também deviam ser difíceis de encontrar. Eu ia à Fnac:
- Desculpe, tem os livros do "Onde está o Wally?"?
- Já viu na secção infantil?
- Já, mas não encontrei.
- Deixe-me procurar.
O empregado voltava:
- Procurei por toda a parte e não encontrei.
- Pois, faz todo o sentido. Procurou na secção de mistério?
Eu acho é que a editora do "Onde está o Wally?" perde uma grande oportunidade de colocar os livros espalhados pela loja sem os funcionários saberem:
- Tem a coleção do "Onde está o Wally?"?
- Não faço a mínima ideia. Vai ter de procurar pela loja toda. Ainda há bocado encontrei um atrás de um Lenovo, mas já foi vendido. Veja atrás dos aspiradores da Rowenta ou então na parte dos CDs de Black Sabbath.
- Desculpe, tem os livros do "Onde está o Wally?"?
- Já viu na secção infantil?
- Já, mas não encontrei.
- Deixe-me procurar.
O empregado voltava:
- Procurei por toda a parte e não encontrei.
- Pois, faz todo o sentido. Procurou na secção de mistério?
Eu acho é que a editora do "Onde está o Wally?" perde uma grande oportunidade de colocar os livros espalhados pela loja sem os funcionários saberem:
- Tem a coleção do "Onde está o Wally?"?
- Não faço a mínima ideia. Vai ter de procurar pela loja toda. Ainda há bocado encontrei um atrás de um Lenovo, mas já foi vendido. Veja atrás dos aspiradores da Rowenta ou então na parte dos CDs de Black Sabbath.
14.12.17
Naco #21
Eu acho que a escultura em areia é a expressão artística mais corajosa de todas. É feita por pessoas que exprimem a sua arte no mesmo local em que se encontra o mar, a coisa mais provável de destruir o seu trabalho. É preciso coragem para fazer isso. Tenho muitas dúvidas que o Rodin fizesse as suas esculturas numa obra de construção civil, com uma bola de demolição de um lado para o outro. Ou o Picasso pintasse os seus quadros numa sala de aula de um infantário. Se o Saramago soubesse de um incêndio ao pé de casa, pegaria na caneta e na folha? Não me parece. Os escultores em areia têm a minha admiração. Ainda para mais quando conseguiram convencer toda a gente que aquilo é mesmo escultura. Se fosse mesmo escultura em areia, cada grãozinho teria de estar cuidadosamente esculpido. Aquilo, quanto muito, é uma espécie de colagem em areia, aguada, a que chamaram escultura. Mais uma vez: é preciso coragem para fazer isso.
6.9.17
Naco #20
Tenho uma dúvida: para quem é que vai a comida que é feita nos programas de culinária? Às vezes, ficam 10 minutos a preparar uma receita sem nunca realmente percebermos se alguém fez o pedido. Será que deitam fora ou a dão ao cameraman? Eu acho que era importante haver outro programa, logo a seguir a este, que faça o acompanhamento do prato depois de terminado. É que assim pode-se riscar o chef Kiko como o principal culpado do desperdício alimentar em Portugal.
15.6.17
Naco #19
Os conceitos da mensagem na garrafa e do barco na garrafa, provavelmente, apareceram na mesma altura. Devem ter feito parte de um projecto numa disciplina qualquer de um curso de artes. O barco na garrafa foi, sem dúvida, o melhor trabalho da turma, com o professor a ficar mesmo impressionado com aquilo. Já a mensagem na garrafa de certeza que teve a pior nota, aquilo não tinha jeito nenhum. Está assim explicada a razão de um ser atirado ao mar e o outro colocado num lugar especial da casa.
17.1.17
Naco #18
No último Verão, estava a visitar a Torre de Londres. Eu estava na parte de fora e apanhei um guia a contar a um grupo as muitas vezes que tentaram conquistar aquilo. O guia dizia que, ao longo dos séculos, a Torre de Londres tinha sido cercada várias vezes, por diferentes inimigos, mas que nenhum tinha conseguido entrar naquela fortaleza. Eu estava ao lado a pensar: “Uau, impressionante. Estas muralhas devem ser mesmo resistentes para aguentar tantos ataques.” Mas depois lembro-me de pensar: “Porra, deve ter sido muito frustrante para os inimigos não conseguirem entrar aqui. Ainda para mais quando bastava usar um boné, vestir uns calções e comer um gelado com o filho mais novo. Com sorte, até deixavam entrar pela porta principal.”
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13.7.16
Naco #17
Estava no autocarro quase a chegar à próxima paragem. Ia sentado à janela e vi um rapaz a correr, no passeio ao lado, em direcção à paragem. Ele fez um grande esforço e lá conseguiu chegar antes do autocarro. Entrou, passou o cartão na máquina e sentou-se à minha frente. Após uns segundos, inclinei-me para ele e disse-lhe:
- Hey. Desculpa incomodar-te. É que reparei que estavas a ir mais depressa do que o autocarro antes de chegares à paragem. Eu vi desde o princípio. Quando estavas a correr, atingiste uma velocidade maior do que nós aqui dentro. Ouve bem o que eu te digo: claramente não precisas deste tipo de transporte. Se calhar, por ainda seres novo, podes ainda não ter percebido como é que estas coisas funcionam. As pessoas apanham isto para chegar mais depressa aos sítios. Mas, como te disse, já estavas a ir mais rápido. Percebes o que está errado aqui? Tu à velocidade a que ias chegavas mais depressa aos sítios. Não precisas de estar aqui, miúdo. Não desvies o olhar…olha para mim. O autocarro não serve para ti. Precisas de um transporte mais rápido. Um TGV, um Airbus, ou, sei lá, experimenta rafting. Não podes é desvalorizar as tuas capacidades. Quando te vi a correr, pensei: “Ele é melhor do que nós. Ele não precisa disto, ele é livre. Não pares, miúdo!” E é isso que te digo agora, olhos nos olhos: não pares, pequeno Sonic. Levanta-te! Isso! Agora que estás em pé, corre! Nós não te merecemos! Sai deste sítio! Isso mesmo, corre! Pede ao motorista para te abrir a porta e sai! É isso, foge! Estás a ver? Tu és livre, não pares agora! Espera aí: por que é que estás a falar com esse agente da autoridade?
3.3.16
Delírios Declarativos #12
Dou muito valor ao Cristiano Ronaldo. A força de vontade, que teve que ter, para se tornar no melhor do mundo serve de exemplo para qualquer pessoa. Gosto de ver as várias reportagens a mostrar o que ele teve que superar para chegar onde chegou. As entrevistas com os familiares e com os treinadores, a contar os diferentes episódios. Quando ele acordava mais cedo do que os outros para ir treinar, ou quando ficava até às tantas da noite a fazer exercícios. Impressiona bastante.
Fazem falta mais reportagens destas para se perceber como se consegue chegar ao topo. Por exemplo: com o Hitler. Não há uma reportagem a mostrar o que o Hitler teve que passar para se tornar no melhor ditador do mundo. Não deve ter sido nada fácil. Se não foi para o Ronaldo, para o Hitler também não. Ninguém nasce com o talento para discriminar. É preciso muito trabalho e determinação. E se o Ronaldo teve, o Hitler também teve que ter.
Consigo imaginar o Hitler, todos os dias, a acordar mais cedo do que os outros para odiar um bocadinho mais. Desde pequeno, sempre a tentar a ser o melhor a fazer comentários xenófobos e racistas. É preciso dar-lhe valor. É preciso mesmo. Foi o maior ditador da sua geração, ainda por cima na época de ouro da tirania. Temos um Mussolini em grande forma; temos um Estaline a fazer coisas maravilhosas ao nível da tortura; temos um Franco a facturar em Espanha. No caso do Ronaldo, há várias pessoas a considerá-lo o melhor, mas tens outros a considerar o Messi. Com o Hitler não. Há unanimidade: “Sim, ele era o ditador mais completo, sem dúvida. Perseguia, torturava, invadia e matava em grande escala. Tinha tudo, de facto.”
É uma pena que já não dê para fazer esse tipo de reportagens sobre o Hitler. Estou a imaginar o Nuno Luz a entrevistar os seus familiares: “Sim, via-se desde pequenino que ele ia espalhar o terror pelo mundo. Ele chegava da escola e ia logo a correr para a janela fazer comentários injuriosos às minorias que passavam na rua. Era impressionante a determinação que ele tinha para odiar. Lembro-me de uma vez que o apanhei, acordado, às tantas da noite. Eu perguntei: ‘Hitler, o que é que estás a fazer acordado a esta hora?’ E ele: ‘Estou só a acabar este desenho da nossa família a chacinar outra família de judeus, com pás.’ Já dava para ver que ia ser um fenómeno."
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23.2.16
Naco #16
Fico sempre espantado com o sangue frio que os polícias têm ao negociar com um grupo de terroristas. Deve ser difícil. Principalmente, se estiverem reféns envolvidos. No entanto, há um cenário que deve dificultar ainda mais este processo: quando acontece numa biblioteca. Aí, esquece, não há forma de negociar. Tens de dialogar com um bando de criminosos, tentar encontrar a melhor solução e não podes falar alto? Impossível. Imaginem os terroristas, com os reféns, num piso de cima de uma biblioteca e os polícias na entrada a falar com eles.
- Vocês estão todos cercados. Não têm como fugir.
- Shhhhhhh.
- Quem é que falou?
- A bibliotecária. Está com a boca tapada, mas mesmo assim conseguiu mandar-te calar.
- Então, como é que fazemos isto?
- Shhhhhhh.
- Pá, temos de falar baixo. A velha ainda se passa.
(a sussurrar)
- Não conseguem fugir daqui. Deixem sair os reféns.
...
...
(a falar alto)
- Ouviste o que te disse?
- Shhhhhhh. Silêncio!
- Pá, estás a atiçar a velha.
(a sussurrar)
- Assim não vai dar para negociar.
...
...
(a falar alto)
- Disseste alguma coisa, bófia?
- Shhhhhhh.
(a sussurar)
- Não temos condições.
- Não sei se ouvi direito, mas, sim, acho que concordo.
- Temos que fazer isto devagar. É o seguinte: temos dois helicópteros lá fora e um batalhão de SWATs prontos a entrar. Não há forma de escaparem.
- Não sei se apanhei tudo.
- Pá, deixem sair as vítimas.
...
...
(a falar alto)
- O quê?!
- Shhhhhhh. Desculpe, mas o senhor terrorista está a importunar o ambiente da biblioteca. Já não é a primeira, nem a segunda vez, que o mando calar. Tenha paciência, mas vou chamar os seguranças. Vitor, Jorge, façam o favor de acompanhar estes senhores à porta de saída.
[À saída da biblioteca, acompanhados pelos seguranças]
- Vês? Eu disse que estavas a atiçá-la.
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