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23.10.14

O Ódio

O futebol desperta muitas emoções. Positivas ou negativas, cada pessoa tem a sua maneira de lidar com o jogo. Há pessoas que odeiam certo clube, certo jogador, certo treinador. Confesso que o futebol também me desperta um certo ódio, mas não tem nada a ver com um clube rival, com a falta de habilidade de um jogador ou com um treinador que não sabe pôr uma equipa a defender, à zona, nas bolas paradas. Aliás, o meu ódio é mais específico, porque não tem bem a ver com os intervenientes do jogo, mas mais com um interveniente fora do jogo. Não, não estou a falar dos adeptos, nem dos comentadores. Estou a falar da minha mãe. 

Eu odeio ver um jogo de futebol com a minha mãe. A sua presença faz-me odiar ver futebol. Sempre que ela está no mesmo espaço físico que eu, consigo transformar-me num membro da claque dos Super Dragões, Juve Leo, No Name Boys, White Angels e Mancha Negra – tudo na mesma pessoa – tal é o odio que sinto dentro de mim. É mais ou menos como aquela cena dos Power Rangers, que levam coça dos maus e, de um momento para o outro, cada Power Ranger junta-se e transforma-se num só e o episódio acaba bem. Atenção: esta raiva não apareceu de um momento para o outro. Isto é o culminar de anos e anos a levar com questões, comentários e comportamentos muito pouco aceitáveis. 

As perguntas da minha mãe andam sempre à volta do mesmo: só mudam as personagens e normalmente não são mais que três. Uma pergunta, muito frequente, que me coloca: “O Real Madrid são os de branco, não são?” É uma pergunta que até pode ser pertinente se for colocada no início do jogo e se a equipa for desconhecida. O problema é que é quase sempre depois do minuto 60 e a equipa é um colosso mundial. Eu acho que a minha mãe deve pensar que está a ver um filme de suspense. “O que está por detrás de tudo isto é o que apareceu de casaco vermelho, não é?” 

Outra pergunta que faz é: “O que é que acontece se o resultado ficar assim?” Nada, mãe. Não acontece nada. O árbitro apita para o final e ninguém é decapitado. O que é que poderia acontecer? O árbitro apitava e dizia para os jogadores: “Ok, 90 minutos de futebol, vamos agora para a primeira parte do jogo da parede.” 

São questões, como estas, que ando a levar ano após ano, constantemente. Há mais uma: “O Ronaldo não está no Chelsea?” Nossa senhora, tanta profanação numa só pergunta! Mais uma vez, podia ser uma pergunta pertinente se não estivéssemos a falar do melhor jogador do mundo. Se fosse algo do género: “O Miguelito – defesa que passou pelo Benfica – não está no Vitória de Setúbal?” Aí está uma boa pergunta, mãe. Não te sei responder. Vou ver no zerozero...Neste momento, está a jogar no Chaves. 

É que isto são coisas que mexem comigo. Não consigo ver futebol descansado. E os comentários? Meu deus, os comentários! Os comentários são sempre sobre o tipo de penteado dos jogadores. Sempre. “Olha-me para o cabelo deste.” “Que lindo penteado.” “Que penteado tão ridículo.” É sempre isto. Não há um comentário que seja: “Epá, excelente transição defesa-ataque a conseguir roubar, rapidamente, a bola e a disponibilizar, imediatamente, nos extremos.” É sempre sobre folículos capilares. 

Mais: o seu comportamento durante um jogo. Eu consigo ver uma partida de futebol, sentado no sofá, durante os 90 minutos. A minha mãe não. Sem mais nem menos, num pontapé de canto, levanta-se do sofá e vai-se embora. Mas tu és o quê? Um gato? O engraçado é que depois só volta passado uns 20 minutos e não dá qualquer justificação. Senta-se como se não fosse nada. 

É que, lá está, estamos a falar de uma mulher que não tem qualquer interesse pela modalidade, mas tenta demonstrar interesse. E isso faz-me odiar ver futebol com ela. O que eu mais sonho é ver a minha mãe num desses programas desportivos. Se os ânimos, nesses programas, já ficam exaltados, nem quero imaginar com a minha mãe lá presente.

27.3.12

Maus da Fita Métrica #5



O provérbio já é antigo: mãe há só uma. E sejamos sinceros, acho que chega muito bem uma. O amor de mãe pode ser único, mas não menos singular são os comentários de mãe. Sabemos que somos filhos de uma grande mulher, quando somos confrontados no nosso dia-a-dia com comentários estapafúrdios pela parte da nossa progenitora - faz parte do seu código genético. Mãe que é mãe alerta para os perigos minuciosos da sociedade, como se tratasse de uma investigação do caso Maddie. As suas observações, normalmente, acontecem dentro de casa, onde aborda várias temáticas que só uma sensibilidade apurada chegaria lá. Um comentário bastante usual ocorre na cozinha: “cuidado com a faca!” – como se esse objecto de inox fosse um pedófilo solto em casa. Ela diz-nos para termos cautela, contudo, deixa-nos usar o talher a nosso belo prazer. Esta acção é o equivalente a alertar-nos para os malefícios da droga, e logo de seguida, dar-nos um calhau de haxixe.

Outro comentário muito bem conseguido, com um lindo toque de ironia, é o que ocorre quando nós vamos sair, e estranhamente, levamos o telemóvel connosco: “agora, perde o telemóvel!” – que delicadeza! Porque quando saímos à noite, é mesmo com esse propósito de perder o instrumento mais importante das nossas vidas. Esta observação revela, também, uma vontade súbita de perdermos o telemóvel, para depois quando chegarmos a casa esfregar-nos na cara: "vês?! quem é que tinha razão?"

Eu percebo que isto é uma maneira de demonstrar amor, através da preocupação constante pelo nosso bem-estar. Percebo, também, porque é que Deus nunca teve mãe. Já imaginaram como seria a criação do Universo, se o Criador tivesse ao lado a sua mãe?

Mãe: Ainda não comeste hoje. Nem penses que vais criar o universo sem o pequeno-almoço tomado!

Deus: Mas, mãe, só tenho sete dias para entregar este projecto na escola.

Mãe: Agora, atrasa-te e não o entregues a tempo!

Deus: Não te preocupes! Já tenho um plano para um planeta que vai ter vida.

Mãe: Ah, sim? Então tem cuidado com os roubos!